quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Há biqueirada, neste estabeli_cimento ( ou como o pó pode ser diferente de pópó )

 
 
 
Se hão-de rir ou chorar com o que se ve acontecer diante dos nossos olhos?
 
 
 
 
 
 
Não vos acontece sentirem-se injustiçados pelos números, como se a vossa matemática não tivesse ainda valor de ser humano?
 
 
 
 
 
 
 
 
Será que sou só eu que não entendo o porquê de muita coisa, e gostava que me explicassem como se eu fosse muito, mas muito burra?
 
 



Será que sou solitária na arte de querer procurar a felicidade?




 


 
 
 
 
 

 
 
As frases feitas também fazem parte da nossa cultura
 e como tal: "quem não arrisca não petisca" ,
"de boas intenções está
 o Inferno cheio" e podia estar aqui até amanhã a provar e contra provar todas as teorias que eu quisesse, mas não vou estar porque isso não aquece nem arrefece, nada mais é senão um ar que se lhe dá ( de vez em quando ) e como por vezes mesmo nas boas noticias, toda a gente se engana
 
decidam por voces o que querem que o novo ano vos traga:
 





espero um ano melhor que o que passou. Capice?





 

sábado, 22 de dezembro de 2012

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Ar ... de natal




E, por esta altura do campeonato ( perguntarão vocês) será que ela se
esqueceu que é Natal?

Na verdade estava à espera da chegada do Inverno, e do seu manto alvo
de beleza e mansidão, para vestir o " sítio" com roupagens
apropriadas. Depois lembrei-me que a chegada do Inverno, este ano,
coincide com mais uma mágica e apocalipitica previsão de fim de
mundo.
Bom, pelo sim pelo não, considero mais prudente " vestir-me"
antecipadamente não vá o dito cujo chegar, sem que eu vos deseje :

Um bonito, desenrascado, imaginativo e alegre

FELIZ NATAL


                                  =D

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

No nevoeiro



Tantas e tantas vezes me ocorre que o D Sebatião, para além de uma
figura histórica será para sempre uma marca genética do código
português...

estaremos, enquanto identidade, infinitamente à espera de algo que nunca irá chegar...


domingo, 16 de dezembro de 2012

Aprender a voar




Quando as rochas derreterem,
e as ilhas se cobrirem com o sumo da vida,
quando o vento assobiar às tempestades,
deixando  as nuvens de chorar o seu tormento
Eu aprenderei a voar
para salvar as crianças
das marcas do passar do tempo

«««««««««««««««««««««««««««««««

ela queria aprender a voar,
aproximou-se,
espreitou pela janela e viu o mundo a brincar sem ela.

abriu os braços e atirou-se:
o chão é duro
o pó levantou, com o peso do corpo
em redor
tudo ficou turvo, os sentidos perderam-se
nada parecia ser o que fora

O chão é duro,
mas é certo o seu lugar
e a menina aprendeu
que os humanos não podem voar

ela queria aprender a voar,  devagar,
a estrada é muito suja, e começou sozinha...

intacta, ela continua,
a estrada há-de chegar...

Um dia


 







Para o menino que queria chegar a Marte ... já passei a fase da lua ... =)

sábado, 15 de dezembro de 2012

Funda_mentalismos



É engraçado...

Por vezes as coisas não parecem claras, não se desenrolam na mente.
Por vezes os nossos olhos não conseguem distinguir por completo aquilo
que nos é mostrado. A mente não traduz o que se nos depara e
perdemo-nos, na suposição da oposição de umas coisas e outras.

Outras vezes a boca não traduz aquilo que o coração sente.

Outras ainda, nada; disso se passa,

e é aí que deixa de ser engraçado.

Opá!!
a vida é uma aventura, um novelo de fios de telefone interligados por
onde as vozes se vão comunicando umas com as outras, em complicadas
redes de transmissão de pensamentos e sentimentos, em que muitas vezes
não se pensa no que se diz nem se diz o que se pensa, e é esta a
diferença que faz toda a diferença.

Diferem, os pensamentos que ferem os sentimentos, os sentimentos que
levam aos pensamentos.


E pronto, hoje não me sai nada melhor.

Com tanta gente que caminha sobre esta terra, eu ainda acredito que
cada tacho, tem a sua devida tampa...

;)

...e no meu quintal, amor é fundamental, llooolll

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

No patamar do céu



Chove lá fora.

Cá dentro as lágrimas caem dos rostos sem brio, amarrotados como de
papel reciclado se tratassem: se nos tratatassem...

Foi assim por entre as luzes do azul e do fluorescente, entre branco
aguerrido que a vida deu a volta. Nas voltas por entre as vidas, o
futuro, cria: pintar a amarelo.

Mas tal como se colhermos uma papoila do mato onde nasce , selvagem
sem a mão humana, também o futuro não se deixa pintar por qualquer
mão. Cria-se. Cria-se um futuro por entre os passos, como se um tango
ou uma valsa se tratasse...

...e o piano prime as teclas, na sonolenta melodia, comprimem-se as
dores, e o futuro passa...passa-se...

Chega.

....de um fabuloso destino, a papoila conjuga as cores, as dores...

e na leveza, entre a alma e outras almas, chegaremos por fim, ao
patamar  de um nosso céu.




*Ana Lúcia Bica ( Tita)*

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Nós: dos grandes





" A Mininha disse: antes de um vulcão explodir, as cobras afastam-se, e se houver um rio ou mar no caminho, as cobras afogam-se. A Matilde baixou-se aos olhos da cria e limpou-lhe uma bágoa. A rapariga explicou: parece que vai tudo explodir. O medo fazia-se assim. Um medo feito de tristeza que tornava a menina arreliada numa pessoinha a vacilar"...

                                                                                     in O Filho de mil homens - Valter Hugo Mãe

" A companhia de verdade, achava ele, era aquela que não tinha por que ir embora e, se fosse, ir embora significaria ficar Ali, junto " ...

                                                                                      in O Filho de mil homens - Valter Hugo Mãe


Deixar ir é mau costume: já dizia a minha tão querida avó ( minha querida é mais uma das coisas em que não estávamos de acordo, e ainda bem que não concordávamos em tudo )  Na minha entendência saber deixar ir é também uma grande forma de se amar: há que saber deixar os filhos abrir asas e voar como se passarinhos fossem, procurando os galhos com que construirão seus próprios ninhos; há que deixar ir aqueles que gostamos, mesmo que contra a nossa vontade, desde que eles achem que vão para onde os seus sonhos se pareçam com o seu eu, como se de um olhar ao espelho estivéssemos a falar; Há que deixar partir com a paz da certeza do que sentimos, para que não restem dúvidas das intenções.

É por isso que vou, porque a vida é feita de ciclos e porque tal como na profecia Maia, houve um ciclo do meu crescimento que se fechou. Talvez que já não cresça em altura ( bem me parece que daqui só para baixo) mas o crescimento pessoal tal como a procura da sabedoria nunca terá um fim. O ciclo fechou porque não me restam dúvidas sobre as intenções, apenas do caminho a trilhar, para alcançar o próximo patamar.

Nós: os grandes ( para usar uma das expressões do meu mais velho) , somos complicados; mas é essa complexidade que nos faz escorrer de dentro uma nascente de pensamentos, que se transformam na expressão mais artística e sensível da beleza da humanidade. Uma irmandade que se une na conquista da beleza e da pureza de um pensamento livre, para combater as complicadas redes de interesses pessoais que se atravessam nas marés da vida: é este o trajecto da  nossa existência;  uns que apoiam, outros que por sua vez são atraiçoados por outros ainda, que pretendem um pouco daquilo que sonham ser o ter de outros (?; complicado? pois... e não disse que os nós eram complicados? )

Talvez a vida deva ser simplesmente como um nascer de sol : recomeça todas as manhãs, dando a cada dia uma luminosidade diferente, mas dentro dos mesmos tons, porque são esses os seu favoritos. Haverá alguma coisa mais bonita num dia do que o seu nascer? Então para quê complicar?


E tal como diz o meu mais pequeno, desolado a olhar para o relógio ( que por estar parado, lhe parece que não avança) : não se mexe...
Não faz mal filho, se tiveres paciência ele há-de estar certo, pelo menos uma vez ao dia.

Nós, os grandes, sempre que deixarmos escapar as pequenas coisas importantes, estaremos a ser cada vez menos nós.








domingo, 2 de dezembro de 2012

À Porta



A porta : da porta para dentro, no meu mundo, ainda se conseguem ver as mito_lógicas criaturas que habitam todos os sonhos que se podem ter enquanto se é criança; os bosques têm árvores frondosas, onde a cada recanto se encontram mágicas criaturas, com misteriosos poderes.
Os caminhos, por vezes turtuosos, no meu mundo, sempre chegarão a algum lugar; a porta: na entrada de um maravilhoso castelo onde as asas me fazem borboleta com uma bateria no peito, qual gaivota a voar pelos céus de uma lisboa que só eu conheço...
No meu mundo, tudo se conjuga, porque tudo isso é ser, e é isso ser o meu ser, mas isso seria quase impossível saber...se...
Dentro da porta assim é; da porta para fora nada se vê para alem dos olhos de quem olha. Uma casa, uma rua, uma estrada, um caminho até chegar, e a espera, a espera do que se pretende encontrar: braços abertos, um abraço ambulante, a colocar sorrisos nos lábios que se abrem para colocar em voz pensamentos com o cunho de uma raiva que não se sabe onde guardar ( onde e que se colocam as coisas que não são propriamente lixo, mas que não sabemos como usar? Onde se deixam, esquecidas, as duvidas, quando tudo corre mal?).
À porta um eu, num seu que é meu e teu...os sonhos da porta para dentro, o mundo da porta para fora, e à volta a vida, que vai na rua, que não me interessa, desde que hajam braços abertos na porta do meu castelo, rodeado de florestas encantadas onde se cantam abraços e desejos.
A porta: da porta para dentro um mundo assim, lá fora tudo o que se espera de mim...


sábado, 17 de novembro de 2012

Talvez...conduzir mais devagar


Talvez tenha sido um despertar presenteado; talvez uma loucura; mas talvez se não tivesse lá ido seria menos uma experiência que poderia recordar.
E a voz? Como se toda a cadência e potência do sentimento lhe saísse por aquelas cordas que abrilhantam os nossos sentidos, como se toda ela se agigantasse nos seus próprios movimentos.

Quem não sonhou um dia ser o interprete especial num local previligiado? Talvez vê-los assim presidencialmente apresentados, de camarote, observando os que deviam observar, transforme a noção de espectáculo. Espectáculo partilha, ou melhor, partilha espectacular...

Talvez os tempos sejam de abrandar,
talvez sejam tempos de esperar,
de proteger,
de inspirar e sobreviver,
mas talvez , ainda com as proteccoes vestidas,
não possamos deixar de procurar aquilo que nos faz feliz!

Tirem-me a vontade,
Levem-me o dinheiro,
Escondam-me a verdade
Visto-me e revisto-me da saudade
de um tempo, em que sonhando em liberdade
Construi a protecção que usarei,
Em tempos de austeridade

Talvez seja este o tempo de conduzir o nosso destino devagar...
Talvez seja esta a oportunidade de repensar o caminho
Talvez...tenha sido uma das melhoras experiências que vivi.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ensaio sobre a cegueira

“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”

“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui.”

“Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira, Isto é diferente, Farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que nós somos aqui, cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos, Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego, Acredito, mas não preciso, cego já estou, Perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, Sei, sei, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma, e se eles se perderam”...

in Ensaio sobre a cegueira - José Saramago

No mundo dos cegos, a amizade é a unica coisa que nos distingue dos animais. É o medo, a ambição e o descuido pelo essencial que nos cega para dentro e para fora...

Eu: (também cega, por vezes) raramente me confesso...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Dez e meio e dois palmos de gente: Sempre na minha mente (as Luzinhas)



Olho o relógio e os ponteiros passam, a marcar horas, pelo mesmo sítio, onde, há 10 anos, o relógio digital marcou pela ultima vez um número em que só eu contava...
Um sono aparentemente igual a tantos outros e o despertar que mudou para sempre o correr, o marca passo, a importância e a noção de que o tempo nunca tem tempo suficiente para demonstrar, fazer, aperfeiçoar e afeiçoar tudo o que pretendemos proteger daí para a frente.
Podia fazer correr as teclas do computador uma noite inteira e não conseguiria descrever o que já vi acontecer dezenas de vezes mas que quando nos calha a nós, sabe sempre a felicidade num estado indeterminado; indeterminado porque não há escala nesta vida que permita comparar com qualquer outra coisa: sentir nascer de dentro de nós, para a luz, uma nova vida, que a cada minuto que corre, daí para a frente, quererá ser sempre e sempre mais independente.

E porque todas as palavras, as letras e os sentimentos não chegam para preencher o interior do ser mãe

Parabéns por seres...  


Tu, uma das minhas luzes


         


Olha, olha esta luzinha a teu lado a brilhar
Assim nunca está escuro nem ficas sozinha
Que luzinha tão lindinha acompanha a menina
Olha, olha esta luzinha a teu lado a brilhar
Assim nunca está escuro e nem ficas sozinha
Ao bébé chamaste Zé e ao ursinho Antoninho
Antes que chegue o soninho
O que é que lhe vamos chamar?

Olha, olha esta luzinha...

Teu lado a brilhar... nem ficas sozinha...acompanha a menina...

Olha, olha esta luzinha a teu lado a brilhar (teu lado a brilhar)
Assim nunca está escuro nem ficas sozinha (nem ficas sozinha)
Que luzinha tão lindinha acompanha a menina (acompanha a menina)
Olha, olha esta luzinha a teu lado a brilhar (teu lado a brilhar)
Queria ter lar (ai que nome)
Que nome lhe vamos dar
Era tão bom ter um nome
Que nome lhe vamos dar?
Antes que chegue o soninho
O que é que lhe vamos chamar?

Olha, olha esta luzinha...
Olha, olha esta luzinha...
Olha, olha esta luzinha...
Olha, olha esta luzinha...

Luzinha....


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Plic-Plec * Tic - Tac



..."...há quem fale com as paredes. Em rapaz lera um romance de um escritor então muito lido, e mais tarde injustamente menosprezado, um tipo com nível, que em certas coisas ia direito ao assunto e que nesse livro falava com o seu próprio corpo, ou antes, com um ponto bem preciso do corpo, a quem chamava o seu "ele", para entabular um diálogo que nada tinha de banal. Mas aqui o caso era outro, porque o seu "ele" não era para aqui chamado, e limitou-se por isso a dizer: perna,oh, perna! Moveu-a e a resposta foi uma dor lancinante. Não havia diálogo possível. Estendeu-a com toda a cautela e a dor concentrou-se na coluna. Coluna infame! Voltou a irritar-se. Pensou que se chamasse o médico, com o qual tinha doravante demasiada confiança, ele lhe diria que estava com um ataque de literatura, observação que já em tempos fizera. Parecia-lhe ouvi-lo: meu caro, o problema está sobretudo no facto de adoptares posições incorrectas  ou melhor, de teres adoptado em toda a tua vida posições incorrectas quando escreves, porque infelizmente o teu problema é escreveres..."...


do conto  Pic plec, plic pec *   de Antonio Tabucchi em O Tempo Envelhece Depressa













Há quem fale com as paredes. Por vezes as paredes sabem mais de nós do que aqueles que vemos todos os dias e a quem podemos estender as mãos num abrir e fechar de olhos. É muitas vezes num abrir e fechar de olhos que tudo muda. São demasiadas as vezes que, entre paredes a quem chamamos nossas,  nos sentimos melhor e quando nos faltam as paredes faltam as traves mestras que mantêm a estrutura fixa, imóvel, segura, forte.
A protecção é um conceito abstracto mas que , por motivos de sobrevivência consideramos simples e fácil de atingir. Como todas as outras coisas é projectada numa imagem que convêm manter inerte durante a vida, para que não se perca. Inerte porque se quer sem vida , já que a vida pressupõe mudança e é essa mudança que teremos sempre muita dificuldade em aceitar, mesmo que ao espelho nos vejamos como facilmente "absoventes" do que é novo.  Absorvemos, observamos, protegemos, simplesmente sufocamos, ou então adormecemos, fingindo tomar o ar que nos interessa, projectado na imagem que entretanto passou a sonho.
O sonho de uma noite de Verão ( as melhores de todas) e onde se pode falar com quem e de quem a nossa imaginação conseguir criar e aí sim podemos seguramente falar com as paredes... ti(c)-ta(c)...

domingo, 4 de novembro de 2012

Por terras e águas do Luso

Da humidade que o bosque transmite, numa terra de água, estranho seria se não nascessem a cada canto,  todos diferentes, por vezes sozinhos, outras "aos molhos". Digo sempre que todos são comestíveis, mas alguns, são-o apenas uma vez...este não sei, que nada percebo de cogumelos, mas tem um aspecto mágico e só lhe faltava a lagarta a fumar, confortavelmente sentada por cima dele.

Parei em frente e esperei que saísse o coelho a olhar para o relógio, a confirmar-se atrasado. Ri-me com a noção que tive que essa imagem do coelho atrasado, me seria tão proximamente familiar.
A porta é minúscula e está implantada, cercada de plantas, num lugar tão improvável que quase que aposto que quem a colocou ali, esperava que parássemos a sonhar, à sua frente....



E por fim, depois de me ter fascinado por mais uma mata nacional, as placas a informarem os sentidos confirmaram-me o que antemão já pressentia  Por vezes existe mais do que uma hipótese de ir dar ao mesmo lugar, só que por uma delas, mais tarde ou mais cedo, vamos inevitavelmente enfiar um pé na cova...

Adorei as terras húmidas e quiméricas do Luso


sábado, 3 de novembro de 2012

Rua, passeio, estrada ou simples estação errada?



A rua era comprida, talvez demasiado ( rua, passeio ou estrada?) para quem desconhece a quantidade de passos que se deram para trás.
Olhou o mapa. Estranhamente naquele mapa não conseguia descortinar qualquer direcção visível. Tentara já volta-lo em todas as posições possíveis e nada, nada.
Sentou-se.
As folhas do chão, anunciando o Outono, formavam o tapete comum para a época. Quando teria chegado? o Outono? Não dera por ele chegar, ocupada que estava a encontrar a direcção.
Fechou os olhos.
O azul do céu colou-se ao chão e as folhas absorvendo o azul levantaram no ar, movidas por uma brisa que não sentiu. Bailavam, brincando, subindo no ar que se encheu de um azul, estranho para a estação.
Acorda!
Ah?
Acorda!
Já chegou?
Quem?
O outono?
Menina, em que mundo vives tu? Há que tempos que cá está.
Engraçado, não tinha dado por nada.
Tu nunca dás por nada.
Dou, quase sempre por nada...e paro sempre numa qualquer estação errada.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Iluminando as horas...




..."Um barco aporta no rio,
Um homem morre no esforço,
Sete colinas no dorso
E uma cidade p'ra mim.

Gosto de ti como quem mata o degredo,
Gosto de ti como quem finta o futuro,
Gosto de ti como quem diz não ter medo,
Como quem mente em segredo,
Como quem baila na estrada,
Vestido feito de nada,
As mãos fartas do corpo,
Um beijo louco no porto
E uma cidade p'ra ti.

Enquanto não há amanhã,
Ilumina-me, Ilumina-me"....


Pedro Abrunhosa - Ilumina-me


Toda a gente quer chegar, ninguém sabe bem onde, mas quer
é quase como um volver, sem saber o que querer...
Falta-nos luz, falta-nos um onde e um porquê
...vamos andando... até quando...
mas vamos... imaginando não morrer
vamos, imaginando um sempre mais arder,
num peito que pensa, enchendo de razão
o lugar do coração...
vamos...
ardendo, num lume de meter medo
esperando um amanhã iluminado
tal como o imaginado
amado
suado
forçado,
sofrido
carregando no sonho a luz
 de um futuro a fazer jus
ao que se caminhou,
ao que não se alcançou..

gosto da vida, mesmo que sofrida:
ilumina-me as horas,
torna-me a felicidade tão comprida
que faz esquecer todas as complicadas demoras...

Um ajuste nas contas
de quem não conta
com as rasteiras
e as asneiras
que a vida nos apronta... 









segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Fagil_idades


Chamou-me a atenção pelo nome (o livro). Chamaram-lhe em português: "o
tempo envelhece depressa".
Engraçada a noção do tempo...
Muda continuamente enquanto o próprio tempo vai passando, escorrendo.
Disse-o já diversas vezes: escorre-me por entre os dedos, o tempo;tal
como as gotas de orvalho escorrem por entre as veias de uma qualquer
folha e caem no chão, para se transformarem em vida, nos ciclos do
tempo de que se alimenta a natureza.
É dessa fragilidade da noção do tempo que nos damos conta a cada novo
dia, e quando num desses, indiferente, um qualquer, de repente , tudo
se torna diferente ficam a faltar pedaços de coisas que não deviam
faltar, faltam peças, uma musica , uma palavra, faltou o momento que
se esgotou na espera de não se acabar, faltou a coragem da atitude que
ficou por tomar. Mudam os sentidos das coisas que faziam sentido, e o
que era pouco passa a muito e o muito desfaz-se em nevoeiro por entre
as dores de quem sempre esperou, por uma outra coisa. Incapaz, para se
transformar...


São como gotas de chuva
orvalho de uma nova aurora
medo que cresce em cada curva
fragilidade demonstrada a toda a hora
escorrem por estas linhas
que se transformam em veias
veias tuas, vidas minhas
presas em insignificantes cadeias

sábado, 20 de outubro de 2012

Certas coisas aparentemente impossíveis: outras formas de pensar...
















Há coisas aparentemente impossíveis, penso.
Penso?
Pensar , essa caracteristica que nos torna humanos  ( é?).
Pensarás tu? E em que pensas quando o tempo te escorre por entre os dedos e tu não sabes o que fazer com ele?
Existem ainda pessoas que não sabem o que fazer com o tempo. Calam-se os minutos , devagar, deitando-se sobre os segundos transformando-os, expandido-os.
Conto-te dos meus pensamentos no silêncio dos segundos que se transformam em minutos, crescem  os meus pensamentos, que falam de mim para ti em silêncio.
Enquanto isso coisas aparentemente impossíveis acontecem.
Pouso os pensamentos na prateleira da memória enquanto pousa em mim um estranho voador pequeno e frágil. No silêncio do bater das asas, frágeis, ouço o grito de quem não sabe do tempo mais do que a natureza obriga.
Voa, tal como o pensamento, para longe. Não te conhece nem tão pouco a mim mas cruzou-se no meu caminho enquanto tu , longe, cruzas-te com outros seres de outras formas.
Pensarás? Perguntas nunca serão respostas e no silêncio dos pensamentos o grito das palavras transforma-se no silencio de quem não sabe mais do que o dia  a dia obriga.

Vou-te contar, os olhos não vão ver, coisas que ninguem pode entender. Vou, voo...coisas aparentemente impossiveis. Será que pensas? Entendes?

Fundamental é ser feliz e há certas coisas que importam mais do que portas que só se abrem em pensamento... Mesmo frágil, a natureza ensinou-me que essas coisas, quando não se cruzam, são insignificantes na magnitude do significado de amor:
Amor é a cura dos erros que a natureza comete em nós; ou é isso ou é apenas um simples voo de uma frágil criatura, de asas frágeis, que se cruza contigo, por um mero acaso dos segundos que se transformam em minutos, expandindo e transformando o tempo com que gastas a tua vida....

e isso é o fundamento de tudo o resto: certas coisas que se transformam em muitas outras coisas, a cura dos erros que a natureza comete em nós. Amor, mesmo quando as criaturas são frágeis e se cruzam, por mero acaso, contigo.
Entendes?
Há coisas aparentemente impossíveis mas eu penso...

Um pouco de um outro céu

De repente o sol quer abandonar-te e o céu adquire aquela tonalidade nunca igual de quem deixa para trás algo que não poderá recuperar-se. Algo irrepetível. Para sempre memorável.

Sentada, o abismo que a ravina deixa adivinhar engole o silêncio que se repete continuamente dentro da tua cabeça. Gostavas de parar o tempo, de guardar para sempre aquela imagem e vive-la repetidamente como espelho da tua própria felicidade; mas o abismo devolve-te o silêncio que preenche continuamente a tua cabeça. 

O sentido de que tudo será diferente amanhã, transfere um sentimento de incerteza que te aproxima do significado de ravina: a raiva de um fundo sem chão, desconhecido e agreste. Sentes que a janela do teu mundo está lentamente a ruir e que para lá do que vês, o ocaso poderá ser diferente, em cada acaso, do que era até agora. 

O contraste entre o céu e o que fica para baixo, no precipício, para onde não queres olhar mas que se adivinha nas imagens que reproduzes do que virá, torna-se pouco perceptível. Como se o mundo tivesse parado, para ouvir o silencio dos teus pensamentos, e o céu fosse o teu próximo chão, e o chão do caminho a percorrer o teu novo céu. Sentes -te num avesso de sentires e de vontades, nada do que seria para ser, assim o será...

O teu sentido de futuro mudou, como muda todos os dias a beleza do sol que se encaminha para o outro lado do mundo, que até aí parece ter estado ás escuras à espera do seu lugar ao sol. Esse sol de que não queres perder a imagem, a lembrança, esse sol que seria teu, no seu perfeito lugar. Memorável. Inigualável...

...E de um momento para outro a noite chega. Diferente. Da janela , nada se percebe agora. A igualdade que nos dá a falta de luz, torna democrática a paisagem. Torna a maioria igual, aparentemente soberana. Pressentes o abismo, mas já não o vês.  E o céu ilumina-se agora com minúsculos pontos de luz, que dizem desde tempos incontáveis, devolver a quem para eles muito olha, a certeza de um caminho a seguir. A força da vontade de não parar, mesmo quando o abismo se mantém fixo, imóvel e imutável, no lugar que terás que enfim abandonar, para deixar o desconhecido lentamente entrar e ocupar o seu novo lugar ...





segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Rotas


Passas pelo mesmo caminho todos os dias, mas
escondidas na tua rota,
existem as curvas que te fazem abanar a cabeça e chocalhar os pensamentos
tentando em vão por em ordem o que parece espalhado pelo chão,
que não sabes como pisar.

Caminho...

Na clareira encontras o sol que se esconde
por detrás daquelas que lá estão e já la estavam
antes sequer de começares a pensar em passar por ali.

Clareira...

As árvores deixam que o sol espreite por entre as folhas que respiram,
fazendo com que este leve com ele tudo o que não necessitam e está a mais,
ajudando-as a transformar, reciclando.

Árvores...

Não andar,
não dar sequer um passo é motivo para ser menos eficiente?
Conta-me árvore, o que vês da altivez da tua inércia?
Fazendo mais por outros do que se poderia imaginar,
sem mexer nada de ti
a não ser quando o vento vem brincar para perto.

Não andar...

Todos os dia escondida na tua rota,
sem dar um passo que não seja necessário,
abanas a cabeça, negando curvas,
chocalhando os pensamentos tentando perceber,
que clareira esconderá o caminho que te levará
àquilo
que não queres de todo pisar...

Todos os dias escondida na tua rota...



"Se cuidas de mim
Eu cuido de ti também
Se vens em paz
Eu venho por bem
Se formos bebendo
o chão deste caminho
Vou guardar-te bem
Agora que sei
Que não vou sozinho"


Tiago Bettencourt - Se cuidas de mim







domingo, 14 de outubro de 2012

As várias formas de dizer: amo-te



No caminho para o modelo (ou continente se preferirem as constantes actualizações de marketing) encontrei esta maravilha e fotografei-a, porque me fascinou.
Fascinam-me as ideias, algumas delas aparentemente sem sentido, que o ser humano arranja para demonstrar o que lhe vai la dentro.
Este apaixonado escolheu baldes de lixo como pano de fundo (ou outdoor) para demonstrar o que sentia.

A duvida tem-me perseguido desde então. Será que rosa compreendeu a nobreza da atitude ( apesar de serem baldes de lixo? ) Será que ela percebeu que o seu apaixonado escolheu uma forma totalmente diferente e só por isso mais chamativa para lhe confessar o que provavelmente de outra maneira não a conseguiria fazer entender? Será que a rosa chegou a perceber que era A Rosa e retribuiu? Ou será que um dia ainda irei encontrar escrito, num outro qualquer lugar insólito, a resposta da Rosa, que talvez, também incapaz de se expressar de outra forma, escreverá algures por ai, num outro mural improvisado:

Também te amo, Ze !

Com tanta hipótese imaginativa de se demonstrar o que se sente, de forma tao "subtil" e engraçada, quem é que necessita de facebook?

Talvez seja este o novo paradigma do graffiti ...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A semente da felicidade



... e depois ela quis ser feliz.
       ... um dia também ele tinha querido ser feliz.

Se fosses um dia de chuva diria que serias um daqueles em que a nostalgia até nos consegue fazer sentir maiores ( sabes como é?)  aquela nostalgia boa, de quem está de bem com tudo de bom e de mau que foi acontecendo ao longo do caminho.
Mas, se a memória não me falha, até nem chovia.

Era só de noite. Uma noite escura em que a única iluminação era a ponte que se fez a cada passo que os juntou.
Talvez se tenham reconhecido, talvez não. Quem consegue adivinhar a linguagem de uma voz que não fala?
Sentiram ( ou talvez não) que aqueles dias lhes aplacavam a solidão que se agarra ao corpo como se uma outra pele se tratasse.
...  depois ela continuou a querer ser feliz
      ...e ele continuou a não saber o que o faria ser feliz... ( só não me deixes gritar)
e a história deixou de fazer sentido...

Antes de tentar ser feliz , sonhava. Sonhava em ser feliz e era feliz sonhando...

Ele chegou. Tomou conta do  seu castelo nas nuvens ( era meu ou era teu, o castelo? ) . Prometeu, roubou o fogo dos Deuses e ateou-lhe a paixão. Mas os deuses castigam quem rouba o fogo sagrado sem pedir permissão para o fazer...e ela assustou-se.

      ....  ela continuou a querer ser feliz...
          .... e ele continuou sem saber se ela o faria feliz.

E a ponte (era uma ponte?) mudou de direcção e ela afastou-se, procurando noutros caminhos aquilo que se tinha proposto encontrar

... continuou infeliz. Quem sente de perto o calor do fogo dos Deuses não se contenta com nada mais.

Será que a linguagem das vozes que não falam são o código de honra dos que vestem a pele da solidão como se não conhecessem nenhuma outra?

Prometeu, roubou o fogo e não voltou...

    ....mesmo assim ela continua a querer ser feliz.

Dizem que a felicidade está dentro de nós. (Cá dentro? Estranho! há anos que me perco dentro de mim e ainda não a consegui encontrar)

     .... será que ele um dia também terá querido ser feliz?

Há sementes que não se devem lançar ao chão, porque se não forem para acarinhar, podem nunca chegar a crescer




" I heard that you're settled down
That you found a girl and you're married now
I heard that your dreams came true
Guess she gave you things,
 I didn't give to you
Old friend
Why are you so shy
It ain't like you to hold back
Or hide from the light

I hate to turn up out of the blue uninvited
But I couldn't stay away, I couldn't fight it
I hoped you'd see my face and that you'd be reminded"...

Adele - Someone like you

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A vida que se perpétua

Cantava-lhe todos os dia, ou quase todos, pelo menos sempre que podia. Cantava-lhe até que adormecesse. A sua voz era como se a luz de uma estrela enorme entrasse pela janela e iluminasse o espaço com o seu brilho. Esta parte já não tinha a certeza, era apenas a sua imaginação a magicar.

Imaginava-a linda, com uma voz suave capaz de enternecer as pedras da calçada de modo a que chorassem na sua ausência. Tal como ele a quisera chorar tantas e tantas vezes, com a presença da saudade que ela deixara no lugar onde a lembrança deveria ter a sua voz, a sua face.

O berço, talhado em madeira, forrado a branco de algodão, seria segundo sabia, obra das suas mãos para que o sonho o acolhesse sempre que ela não estivesse a seu lado. E não estaria. Nem a seu lado, e vagueando na sua memória só a imaginação daquilo que foram as palavras de outros a seu respeito.

Desconhecer o ventre onde se gerou o amor ou o seio que alimentou a existência que lhe permitiu os passos que foi dando era a pedra que trazia dentro do seu peito.

Embalava-o a certeza de que existira, que o amor que o acolhera era real. Lançava ao mundo a semente que permitiria partilhar o que bom dela continuava a existir...

Chorou. A madrugada acolhia assim um choro de vida...uma menina... alva como a outra estrela que não chegara a conhecer.

Chamar-se -á Utopia, em homenagem de sua mãe e de todas as mães que vivem e morrem na utopia da perfeição daqueles que serão para sempre seus: sangue e carne, genes, sofrimento, esforço e muito amor...

Chora ainda.
Na dor de uma
a vida de outra se perpétua...
terra, ventre, sangue e lágrimas
estrela que brilhas
na noite, no dia, em casa, na rua...
na dor de uma
a vida se perpétua
chora ainda...
estrela que brilhas


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Voltar



Subia a rua todos os dias, a mesma rua. Passava por baixo do
candeeiro, todos os dias, o mesmo candeeiro. Por vezes parava a
fitá-lo de baixo, só para sentir a luz a banhar-lhe os pensamentos,
como se dali viesse a iluminação necessária para carregar a baterias,
vazias, para o que iria encontrar a seguir.
Vê-lo de longe agora, dava-lhe uma outra perspectiva. Aquele que era
apenas o candeeiro da sua rua, dois passos antes de entrar em casa e
subir a escada, para lá dentro, encontrar sempre mais do mesmo, hoje,
de longe, tomava um aspecto diferente.
Estava parado é certo, no mesmo lugar, sempre, mas com uma aura
diferente, de magia, como se tivesse sido aquele o foco de luz,
ardente, que lhe aqueceu os sentidos no caminho que depois seguiu.
Foram tempos escuros , os que vieram depois... sentiu a falta daquela
luz que invariavelmente lhe iluminava as noites e as lembranças da
coragem que nunca teve a noção de que tinha, ou que iria ter depois.
Indiferente ao que foi e ao que será, o candeeiro cumpre simplesmente
a sua missão. Ilumina. Nunca tinha imaginado que para além das noites
também as mentes , as vontades e os caminhos da vida poderiam ser
iluminados por um simples candeeiro.
Vê-lo de longe agora dava-lhe uma outra pespectiva. Aquele seria
sempre o seu candeeiro, o candeeiro da sua rua, mesmo que outras ruas
já tivessem sido subidas, usadas, passadas ou vividas...
Subiu a rua, passou por baixo do candeeiro, e parou para fitá-lo de
baixo, só para sentir a luz banhar-lhe os pensamentos...dali viria,
ela já o sabia, a iluminação necessária para carregar a baterias,
vazias, para o que irá encontrar a seguir.


" Encontrar
Poder encontrar
Todas as coisas que eu não soube dar
Saber amar
Perdoar
Saber perdoar
Há tanto tempo que eu queria mudar
Queria voltar
Aceitar
Deixar que o tempo te faça voltar
Saber esperar "

Rodrigo Leão - A Casa



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Acordar a cada passo

Penso na vida como se fosse um puzzle. Cada peça encaixa no seu lugar, mas muitas vezes o lugar certo desperta em ti depois de teres colocado muitas outras ( peças ).
As rotas por vezes saem do mapa e o gps perde na ligação ao satélite. Ficas à deriva, guiando-te apenas pelas estrelas esperando acertares na polar que te mostre o norte. Forte, ficas mais forte, é o que dizem. Mas os fortes também serviram sempre para proteger aquilo que lá dentro pulsava e imprimia vida a um determinado reino.
E cada um reina no seu trono, tendo por rei a sua própria eternidade, que depende do valor que se dá aos nós. Que se enlaçam e desenlaçam e formam as cordas de mãos humanas que te impedem de cair e de fechares ( no forte) a vida que há-de vir...


... Porque cada passo
é o governante
no paço inebriante
onde actua a tua vida
e a vida, traço a traço,
desenlaça cada laço
numa chegada ou numa partida...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O espaço

Nunca soube muito bem definir como era. O espaço.
Não sabia das imperfeições das paredes, nem se o branco que podia jurar ser a sua cor, estava já cansado dos anos em que se mantera firme na sua verticalidade .
Não se lembrava da porta, nem do puxador. Sabia descrever a janela e a paisagem como se lá voltasse todos os dias. mas não voltava.
Aliás não voltava lá desde que da ultima vez não conseguira abrir a porta.
Trancada.
Trancaram o refugio, como se pertencesse a outro alguém. não pertencia, era seu.
O que mais gostava naquele lugar, para além da janela, que alterava a paisagem de todas as vezes que lá tinha ido ( parecia que a paisagem adivinhava o que lhe seria mais proveitoso visualizar) era a quantidade de objectos que encontrava nos sítios mais impróprios e nunca no lugar certo. Ali a máxima cada coisa no seu lugar e cada lugar para a sua coisa não valia nada, ou seja , valia o que valia, o valor das palavras que se dizem por dizer.
A Confusão reinava, com o telefone no cimo da estante dos livros, ou, como da outra vez, em que encontrou o sofá virado de pernas para o ar e a descansar, no seu topo, uma jarra com um girassol, de uma cor completamente impossível.
Impossível.
Não teremos todos os nossos locais impossíveis? as nossas paisagens impossíveis?
Trancaram-lhe o acesso quando a porta pareceu começar a ficar demasiado pequena para conseguir entrar sem se dobrar.
Não sabe quem tem a chave.
Sabe que naquela janela a paisagem muda todos os dias completamente indiferente ás leis das estações onde nenhum comboio pára porque a vida está no movimento perpétuo, tal como na mudança de paisagens.
Agora as coisas continuam a ter locais impossíveis e sem lógica, mas o espaço já não é o seu.
É isso aí... a vida adulta começa quando finalmente percebemos que não temos nenhum controlo sobre aquilo que racionalmente chamamos lógica. Mas ela ( lógica?) jamais vai parar de olhar, procurando o lugar onde as suas coisas se encontravam, próprias, para cada dia, conforme a estação onde o comboio poderia parar , só por um instante...para descansar...


...e se só por um dia
acreditares que a estação é tua
a letra que ninguém entendia
passará a ouvir-se até na lua...
O comboio acabará por parar
no local que foi escolhido
nesse lugar, a descansar
encontrarás o teu sentido...

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A Flor de Sal



" Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal
da terra: e chama-lhes o sal da terra, porque quer que façam na terra
o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a
terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que
têm o ofício de sal, qual será , ou qual pode ser a causa desta
corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa
salgar. "...


Sermão de Stº António aos peixes -
Padre António Vieira




Branca, fria(?), ar tosco. Os primeiros raios da luz da manhã insidem obliquamente nas suas minúsculas folhas deixando a descoberto um suave brilho, que só se percebe bem em algumas incidências.
A luz decompõem-se.
P`las lágrimas, deixando-a a descoberto, as várias tonalidades que a luz branca pode gerar formam um arco-íris em cada folha. A íris, na palete de cores confunde e pode fazer dela qualquer
flor.
Não é uma qualquer. É a flor de sal.
Suave visão, branca como a neve... e ainda a vida, a manter-se à superficie como se uma ilha fora, tentando não afundar, para não se tornar apenas em mais sal vulgar. Colhida por mãos alheis, desfolhada em minimos cristais: pedra brilhante, agora, deformada.
Num qualquer prato servida? Não! As folhas que brilhavam e fizeram dela flor, lembram, no gosto do seu tempero que a mão certa só do melhor se servirá...



..."Few tears
Few milles
between my vision
and your calm routine

And I`m stading here
happy to be here
happy to be here
here and now" ...


Open Window - THE GIFT

sábado, 29 de setembro de 2012

Foi Deus?

                                   





Pergunto-me demasiadas vezes demasiadas coisas, e só me ficam as certezas quando me dão as respostas. As perguntas certas nem sempre são feitas e por isso as respostas não satisfazem. Lutamos dia a dia em conjunto ou solitários por aquilo que queremos. Mas será que foi isso que escolheram para nós? Se acreditarmos que somos donos do nosso destino, tudo nos é possível. Mas seremos mesmo? tanto destino que por aí anda, coincidindo em quereres, objectivos, desejos...um passo em falso e viramos a esquina para o lado "errado" encontrando alguns rostos e perdendo o rasto a outros, baralhando as respostas das perguntas que ficaram por fazer.

Tudo nos será possível ou a possibilidade é toda a certeza que poderemos alguma vez entender??

                                         
                                                    " Foi deus
                                                  Que deu luz aos olhos
                                                       Perfumou as rosas
                                                             Deu oiro ao sol
                                                                  E prata ao luar





Foi deus
      que deu voz ao vento
             luz ao firmamento
                   e deu o azul às ondas do mar
                                                               
                                                            Foi Deus...

                                                           

                                                                  
 
                                                 
       ( excerto do fado -Foi Deus -composição de Alberto Janes para Amália)*



Foste tu?
Foste tu que baralhaste os caminhos?
Foste tu que separaste os nós e enleaste os cadilhos, formando assim os trocadilhos?
Foste tu que baralhaste as cartas e depois cortaste a mão jogando à sorte qualquer um dos naipes?

Foste tu que puseste a pedra no meio do troço?
Foste tu que separaste as gentes e lhe deste a voz para que se juntassem de novo?
Foste tu?

És tu que crias as perguntas?
És tu que as respondes?
Mas se as perguntas já foram feitas, de que vale a resposta, se já a deste, desde o início dos tempos?

Foste tu?
Foste tu que nos puseste a caminhar lado a lado , criando cordões humanos que te perguntam, porquê?


És tu?

                                                   O QUE ME PERGUNTAS?

                                  Sem ouvir a pergunta, jamais saberei dar a resposta....


                                                         "Se canto
                                                 não sei o que canto
                                                 misto de ventura
                                                 saudade, ternura
                                                  e talvez amor..." *


Se és tu que crias o veneno, porque tens o antídoto?
Se a cada passo, percorro o caminho que me deste, porquê tanto obstáculo até ao fim...

Onde vais Senhora?











quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Mimo

Sempre gostou de os ver assim , imóveis, como se fossem estátuas humanas, aliás, é isso que lhes chamam, certo?

Estava um dia cinzento, daqueles dias em que o céu não tem cor definida e nem se consegue distinguir se o céu é céu ou se são apenas nuvens em blocos uniformes que se recusam a demonstrar as junções que existem entre elas.
Correu para perto assim que o viu.
Sempre a fascinaram aquelas figuras imóveis e indefinidas.

Poderia até fazer um quadro perfeito descrevendo-a com uma menina loira de totós, presos com fitas coloridas e um vestido que lhe dava a graça da idade da brincadeira. Mas não há quadros perfeitos e nem mesmo os grandes mestres se satisfazem por completo com as suas criações.

O cabelo era curto, talvez demasiado curto, o que com os seus 5 anos a fazia passar por qualquer coisa. Tanto podia ser menina , como menino, já que também não era hábito envergar os tais vestidos coloridos que seriam necessários para o quadro perfeito.

Era cinzento, todo cinzento, e tal como as nuvens se recusavam a demonstrar as suas fissuras também as suas roupas pareciam ter sido esculpidas do seu próprio corpo. Tudo uno. Cinzento. Imóvel. Respirava? Sentia? Pulsaria alguma coisa por baixo da cinzenta unificação?
Que estranho que é...não pode ser natural.
Fascinavam-na ao ponto de se deixar estar, também ela imóvel, durante todo o tempo que conseguisse à espera que a estátua humana se movesse.

O meu nome...chamam o meu nome...só mais um pouquinho...

Abriu os olhos
Vai-se mexer! vai-se mexer!
O olhar pareceu cobri-lo com uma chama de vida ténue, que depressa se apagou. Nem os próprios olhos pareciam transmitir vida através da imobilidade.

O meu nome...chamam o meu nome...
gritam-no agora...

Virou costas, devagar a principio e depois, abraçada pela curta memória característica de quase todas as infâncias, em passos salpicados por sonhos ultrapassando em saltinhos obstáculos que só ela própria via existirem no chão.

O homem estátua... Virou-se.

Tinha mudado de posição. Bastou apenas alguns minutos. Ele mudou de posição e ela não conseguiu dar conta.

Esconde as mudanças de posição, para que não o consigam perceber...deve ser por isso que também lhe chamam mimo.

Chamam por mim.
O que estavas a fazer?
Nada. Estava apenas a ver a figura da perfeição.


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Mudanças de Estação



Por aqui vestimos as cores de Outono. Parece que veio de mansinho, na hora certa, ocupar o lugar que lhe pertence. O Outono é para mim a necessária estação para a hibernação que vem com o Inverno. Não que me passe sequer pela cabeça hibernar (porque como isto anda, aí de quem não vá trabalhar) mas porque no fundo o Inverno é um tempo de reclusão e meditação em que nos vimos confinados à protecção segura de um abrigo contruído, para que as tormentas que o céu divide, não sejam fatais e demasiado rigorosas.

A verdade é que arranjei uma desculpa para mudar um pouco, parece-me sempre que nunca está suficientemente bem e que se pode sempre melhorar e nunca fico totalmente satisfeita com o resultado. Exigência? não acho, até porque sou bastante descontraída quando faço uma coisa que realmente gosto. Mania da perfeição? ( completamente fora de hipótese, sou contra isso e a minha religião não me permite) Então o que será? Na verdade acho que é uma insatisfação que me é intrinseca, nunca estou realmente satisfeita com o resultado daquilo que faço. No entanto, esta premissa aplico-a a mim e exclusivamente a mim. Traz-me de facto alguns contra-tempos e nunca dou o devido valor ao que é meu. Apesar disso sei que consigo quase sempre transmitir a outros o valor que lhes atribuo, mesmo que por vezes a expressão desse valor seja feita de uma forma que me caracteriza, ou seja, é preciso conhecer a peça para lhe entender o significado.

Num dos vários cursos que já fiz (como é também característica da minha geração, todos nós acumulamos formações atrás de formações), na disciplina de relação interpessoal, o professor caracterizava o português como aquele que, numa sala escura onde só  houvesse um projector, se iria colocar no local mais sombrio dessa mesma sala. Lembro-me de ter pensado: Sou eu! Não há dúvida, corre-me sangue português nas veias! O pior é que isso nos tem trazido demasiados dissabores ao longo dos tempos, especialmente por desvalorizarmos aquilo que é nosso.

Felizmente vão existindo alguns Mourinhos e Figos e Ronaldos, que apesar das criticas de que são alvo no seu próprio país, lá vão levando a sua avante, acreditando sempre no seu real valor.


Temos que ser fortes! acreditar no nosso valor e acreditar que apesar de todas as cigarras a cantar neste país, as formigas resistirão aos Invernos, preparadas que estão para os tempos maus...